sábado, 27 de setembro de 2014

96 - vem

sinto, logo existo
vem logo, ou não existo

95

Não fazia sentido até ter tido
porque
até ter tido, não havia sentido

94 - fio

Era o fio do telefone
era o fio do computador
era o fio do tablet
era o fio da tomada
era tanto fio
que perdi o fio da meada

sábado, 13 de setembro de 2014

93 - Indispensável

É indispensável à mulher bonita, um bocado de insegurança.

92 - Altar

No altar, gravata e terno
só se for amor eterno

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

91 - pressa

não tenha pressa porque com pressa a pressa estressa

90

quanto mais eu quero
que você
desapareça

mais a boca abre
e diz
apareça

89

Crescer

é crer
      para ser





.

88

Inspiração
        inspira
             ação





.

87

A página em branco

            deu branco





.

86 - Silêncio

Eu gosto de silêncios que





.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

85 - Televisão

"A televisao/ me deixou burro/ muito burro demais"
TITÃS
(antes de verem muita televisão)



Conversava com um amigo:

- Eu não assisto televisão. Não há nada que preste, em canal nenhum.
- Eu também não. Na verdade, a única coisa que vejo é o Jornal Nacional.

A vontade era de dizer:

- Mas pera aí meu amigo. Se eu fosse te aconselhar a não assistir um programa só, esse seria o Jornal Nacional. Assiste o Faustão, a novela ou o Fantástico. Sei lá, o Esporte Espetacular, o Ratinho, o Raul Gil. Mas não o Jornal Nacional. Esses você vê pra rir, pra chorar, pra ficar com raiva... Mas o Jornal Nacional você vê, teoricamente, pra se informar. E a última coisa que uma pessoa que vê o Jornal Nacional está, é informada. Na verdade, o contrário, ela está desinformada.

O JN passa entre a novela das 7 e a novela das 8. Esse é o público alvo do Jornal Nacional.

Mas eu falei apenas:

- Hummmmmm.

domingo, 19 de maio de 2013

84 - Mais do mesmo. De novo.

Vai começar mais uma novela das 8 na rede Globo. Eu nao sabia que a outra tinha acabado, mas nao faz a menor diferença.

Novela as pessoas assistem por ser novela. Nao o fazem pelo roteiro, nao o fazem pelas atuaçoes, nao o fazem pela fotografia. Assistem porque naquele momento não terão nada pra fazer e estarão na sala sentados no sofá com a TV ligada.

A audiência das novelas vem caindo ano após ano. Em 1986 a novela Roque Santeiro obteve 76 pontos de audiência segundo o IBOPE - hoje cada ponto equivale a 62.000 residencias sintonizadas. Em 2013 a novela Salve Jorge terminou com média de 35 pontos.

Acredito que a audiência não tenha se esvaído pela falta de qualidade dos folhetins - a falta da qualidade é uma característica do gênero. A queda se dá por conta das outras mídias, onipresentes nos dias de hoje. Além da tv a cabo, há a internet.

Eis que surge a nova novela, Amor a Vida. Por curiosidade acabei lendo a sinopse. Antonio Fagundes fará um bom moço pela centésima vez e será casado com Susana Vieira, uma mãe meio desequilibrada pela milésima vez. São eles, mas poderia ser o Tony Ramos com a Renata Sorrah, o Tarcísio Meira com a Renata Sorrah ou quaisquer outros, tanto faz. A história é mais ou menos assim:

A mocinha (interpretada por uma quase senhora de 30 anos) passou no vestibular e vai entrar na universidade. Para comemorar a família vai passear em Machu Pichu (todas novelas das 8 tem seus capítulos iniciais no exterior, antigamente era Europa. A crise os trouxe à América Latina). A mocinha é rejeitada pela mãe que só tem olhos para o filho, homossexual enrustido (ser homossexual é década de 10 total). Em Machu Pichu  a mocinha conhece um doidão riponga e se apaixona. Engravida, nasce o filho. O irmão homossexual que detesta a mocinha, no caso sua irma, resolve sequestrar o sobrinho. Como o faz apenas por maldade e não para pedir um resgate, joga o bebê no lixo. Um desavisado encontra o bebê na lata de lixo e resolve adotá-la. Anos mais tarde a garotinha que foi reciclada pelo desavisado, por uma grande ironia do destino, aproxima-se de sua verdadeira mãe, que se torna sua pediatra.

Mais do mesmo. Uma história sem pé nem cabeça que só com muita "suspensão da descrença" irá colar.
Mas, como acredito que passando chuvisco entre 20h e 21h a audiência não baixaria dos 30 pontos, essa novela tem tudo para ser um sucesso. Ou não.

83 - Esmola

Era janeiro de 2013. Estávamos do lado de fora de um mercado público, sentados em cadeiras metálicas estampadas com a marca de uma cerveja qualquer. Aguardávamos uma porção de bichos-do-mar devidamente engordurados. Antes deles chegou à nossa mesa um maltratado homem. Chamava a atençao a pilha de livros que carregava. Um bibliotecário do pós-apocalipse é o que parecia. Pardo, extremamente pardo - se isso é possível. Apresentou-se educadamente. Morador de rua, analfabeto e vendedor de livros. Carregava em suas mãos um tesouro que seu analfabetismo não o permitia desfrutar. Coirado! Tao coitado quanto nós, analfabetos diante dos tesouros da vida. 

Pedia quinze reais em troca de um exemplar de seus tesouros. Justo, ele faria melhor uso dos meus quinze reais e eu faria melhor uso de seu livro.

Enquanto escolhia, ele sugeria-me os livros mais grossos, imaginando que livros sao como camaroes empanados, quanto mais, melhor. Nao dei atençao e escolhi a mais reluzente joia do tesouro. Bukowski, Notas de um Velho Safado. Mais do que um livro, seria a minha primeira vez com o velho safado. 

O livro, li com gosto. Bukowski é genial. Nao há palavras para descrever o quao valioso foi aquele momento, é como se eu tivesse sido apresentado para um grande amigo. Esse livro, tenho certeza, foi a melhor  esmola que recebi.

--

Esse é Bukowski:


Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. 

Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.


As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.


O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.


Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.


— Quer um drinque? — perguntei.


— Claro, por que não?


Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.


— Me acha bonita? — perguntou.


— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…


— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?


— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.


Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.


Ela me olhou e riu.


— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?


Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:


— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por 
cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.
— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.



— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa 
sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. 

Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. 


Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.


— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma 
coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.


— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que 
se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. 

Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. 

Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

82 - Migalhas

Todo o dinheiro do mundo são migalhas
E os pássaros não as querem

quarta-feira, 8 de maio de 2013

+1

Erramos muito por aí.
Erramos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

80

Sinto-me estranho
sou um estranho sem ninho
e é por isso que ganho
ao menos sou passarinho

79 - Entender

Não entendo
a necessidade de entender 
e
a dificuldade de sentir

entenda
se não por mim
por ti

segunda-feira, 18 de março de 2013

78

Gosto de falar sobre política, afinal, acredito que tudo é política. Somos seres políticos, não somos? Escolher falar sobre política, e não sobre a novela, é um ato político.

Mas ao falar da política partidária, evito fazer críticas a qualquer partido. Hoje a estrutura político partidária brasileira está bipolarizada. De um lado PT, do outro PSDB. E o PMDB ao lado de quem está no poder.
Durante um debate, ao, por exemplo, criticar o PT, implicitamente você está simpático ao PSDB, mesmo que não esteja. O seu interlocutor assim o entenderá. E, ser simpático a qualquer partido político, é algo que recuso.

Digo isso após, por acaso, ler sobre uma manifestação política nas Filipinas. Lá estudantes atearam fogo em uma universidade porque uma aluna havia se suicidado após ser expulsa da faculdade por inadimplemento. Os alunos ainda denunciaram os preços abusivos das mensalidades.

Os protestos são interessantes, pois são muito parecidos em quase todo o mundo. As pessoas aguentam toda a opressão de maneira passiva por longos períodos de tempo. Chega um ponto em que a paciência e a boa vontade acabam, e aí as pessoas ficam revoltadas e explodem. Saem às ruas, quebram vidraças, ateiam fogo - um momento anárquico. Mas esse momento acaba quando a polícia aparece e repreende de maneira dura os desordeiros. Balas de borracha, bombas de efeito moral , gás lacrimogênio e outras "munições menos letais" são usadas para temperar o caos e trazer de volta a ordem. Basta uma borrachada para o manifestante cair na real e se dar conta de que ele não pode fazer nada contra a força opressiva do Estado.
Se não for preso, o coitado volta pra casa para viver a sua vidinha. Até a próxima explosão.

Alguns outros protestos, são mais interessantes. Mais inteligentes. Mas só poderão existir se passarem pelo crivo do Estado.

Marcha da Maconha pode. O STF mandou avisar que marcha da maconha pode. Antes não podia. E muito maconheiro apanhou da polícia e foi preso. Mas no ano seguinte eles estavam lá. Com mais e melhores argumentos. Tomavam mais borrachadas, mas não desistiam, voltavam maiores e mais fortes. E, hoje, ninguém duvida que em breve terão o seu sagrado direito de fumar admitido pelo mesmo Estado que os espancava  até bem pouco tempo.

Enquanto o povo esperar passivamente a "explosão" para partir para ação, o Estado virá com mais borracha.

--

E por que eu não gosto de parecer simpático ao partido A ou B? Porque são eles que puxam o gatilho.

Quando o povo pede democracia, o Estado oferece pimenta.



terça-feira, 12 de março de 2013

77

Uma frase pesada:

- Sabe quando tentam linchar alguém? É porque merece.

76 - Mundo Surreal

Mundo surreal esse que vivemos.

O cara participa, pela segunda vez, do BBB. Lá dentro da casa ele fica com uma garota. Ele é eliminado, ela não. Ela é indicada ao paredão e a família vai ao Rio de Janeiro para o paredão. O cara convida os pais da garota para almoçar - imagine o papo.

E o surreal?

Isso vira notícia.

75 - Passarinho

Mario Quintana morreu em 1994. Eu tinha 12 anos na época.

Lembro até hoje do dia que anunciaram sua morte no Jornal Nacional. Uma de suas poesias, citadas na matéria, ficou na minha cabeça. O "Poeminho do Contra".

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Eu não entendi. Poesia era algo muito complicado para mim. Como assim, "eu passarinho"?!?

Tentei interpretar de maneira cartesiana - e hoje fico espantado ao perceber que crianças de doze anos estão pensando cartesianamente - e não cheguei a lugar algum. Não fui feliz.

E, hoje, passados 18 anos do episódio, eu sou capaz de compreender o "poeminho". Não de interpretá-lo, sim compreendê-lo. Não há nada mais preciso do que afirmar que "não fui feliz" ao não entender o poema.
Ao contrário, ao entendê-lo - o entendimento da poesia, vá muito além da mera interpretação - "fui feliz".

E mais feliz ainda sou por perceber que com 30 sou mais sensível do que com 12.

--

Daquilo, nasceu isso:

Com 12 tentei Quintana entender 
Mas não entendi
Com 30 pude perceber
Quanto tempo eu perdi

74 - onírico

Não tenho muitas posses, mas tenho muitos sonhos.

As posses são úteis. Os sonhos não.

Um carro veloz tem muita utilidade. É capaz de percorrer longas distâncias em pouco tempo.
Uma televisão com uma grande tela é utilíssima. Transmite filmes, novelas, outras atrações e muito entretenimento.
Um sapato de couro de jacaré também tem sua utilidade. Combina finamente com ternos italianos.
Uma panela é útil para cozinhar.
Um martelo é útil para pregar.
Uma cadeira é útil para sentar.

Os sonhos são inúteis. Esses, tenho muitos.

Os sonhos não estão relacionados ao ter. Os meus sonhos são o que sou. Quando sonho, sou um sonhador - e, nada contra burocratas úteis calçando sapatos de couro de jacaré e trajando ternos italianos, eu sou muito mais os sonhadores.

Os sonhadores com seus sonhos sonham o sonho do mundo.

Enquanto Ghandi sonhou com a revolução através da verdade e da não violência, e Lennon sonhou com a paz na Terra, eu tenho sonhos mais modestos. Sonho em ser acordado por um passarinho. Ver o verde vencer o cinza. Sentir cheiro de terra molhada sempre que chove.

Sonho com as pessoas vendendo posses e comprando sonhos. Porque, quando compramos sonhos, somos, enfim, ricos.

As posses são úteis. Os sonhos, imortais.

sexta-feira, 1 de março de 2013

73

A onipresença das tais redes sociais faz com que eu chegue a uma conclusão:

- Não basta ser, há de parecer ser.

Se somos, não basta. Precisamos ser percebidos como tal. Muitas vezes caímos na armadilha de, na ânsia do "parecer ser", criar um personagem diferente do que somos. Aquém do que somos, além do que queríamos ser.

Eu ainda fico com a máxima de Nietzsche:

- Torna-te quem tu és.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

72 - + BBB

Não sei o que pode ser pior. Participar uma vez do BBB ou participar DUAS vezes do BBB?

É a maior assinatura de fracasso que o cidadão pode dar. Participar duas vezes do BBB.

Imaginem convidar a Grazi Massafera, a Sabrina Sato ou o Jean Willy para voltar para o BBB.

Até o Kléber Bam-Bam rejeitou o BBB. O BBB é atraso de vida para o Kléber Bam-Bam. Para o Kléber Bam-Bam.

O BBB supostamente deveria ser o início de uma carreira. Como a maioria dos ex-bbb´s é medíocre e passa a viver a vida de "ser ex-bbb", voltar ao programa pode, observem o absurdo, dar um "up" na carreira do ex-bbb.


71 - Corinthianos Presos

Interessante esse caso dos corinthianos presos na Bolívia. Agora querem dar uma pernada nos bolivianos e apresentar um menor de idade como autor do disparo. Está cheirando a 171 brabo. Podemos ter uma crise diplomática.

Tem, no mínimo, o roteiro de um bom filme aí.

70 Considerações BBB

Por acaso assisti um evento que me deixou com a chamada "vergonha alheia". Eram os Titãs tocando no BBB. De um constrangimento que dá até diarréia. Uns tiozinhos cantando "Bichos Escrotos" para meia dúzia de... bichos es... deixa pra lá.

Não há nada mais inofensivo, ou como diria Lobão, não há nada mais "brocha" do que 4 tiozinhhos cantando "eu não gosto de padre, eu não gosto de madre" para meia dúzia de idiotas no programa mais idiota da televisão brasileira.

No fim da apresentação, meio que tentando justificar o injustificável, o Sérgio Brito afirma:

-Em 15 anos de carreira foi a primeira vez que fizemos algo parecido com isso. Valeu!

Poderiam passar mais 15 anos sem essa. Vacilaram.

--

Esse programa é realmente para imbecis. Talvez "não-imbecis" assistam. Mas o público alvo são os imbecis.

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Esse Eliéser é tão trouxa que é capaz de ganhar. É tão trouxa que passa por bobo. O Brasil gosta de um bobão.

--

O personagem "Bial -BBB" já é maior que o Pedro Bial. Bem feito.

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O BBB beira a surrealidade. Um bando de idiotas debatendo a futilidade, orando sobre o nada. Chega a ser cômico. E tem muito de tragédia.

69 - Publicitários

Publicitários, eu odeio todos. Detesto.

Todos me ofendem.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

68 - Trago, deixo


Quando vou, uma parte fica

Não fica a mão, não ficam os dedos

Não ficam os braços, vão-se os pés

Não ficam pernas nem ficam olhos

Não ficam orelhas, trago a boca

Fica a vontade, fica o desejo

Fica o tesão

Fica o que não é carne do coração

Fica a inspiração, deixo o lembrar

Fica tudo que não se pode encostar

Fica você

67 - Saudade


Saudade de te ver

Saudade de te ter

Saudade do teu ser

Saudade de nós dois

Saudade de estar

Saudade de ficar

Saudade de beijar

Saudade do que éramos

Vontade do que seremos

Saudade de você

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

66 - Errado estou eu...

Enquanto a gente diz que ela é a razão de viver, ela está preocupada com os milímetros que sobram entre o cotovelo e a axila.

Culpa da televisão, culpa das capas das revistas.

Vendem um padrão inatingível, semeiam uma imagem que não existe, que não é humana. Um padrão de beleza que só é possível em meio a filtros, brushes e layers de um photoshop.

No meio da caminho, perdem o poder da interpretação. É oferecida uma poesia, preocupam-se com o papel. É oferecida uma música, preocupam-se com o violão. É oferecido um amor, preocupam-se com as amigas.

Mulheres, esqueçam os comerciais. A economia só existe por causa de vocês. Do jeito que são.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

65 - Feliz ano novo

No dia 27 de novembro foi gravado o "Show da Virada". Artistas do gabarito de Thiaguinho, Aviões do Forró, Belo e Mc Coringa, gravaram, em plena terça-feira, o show que será exibido no dia 31 de dezembro pela rede Globo.

Que a emissora trata todo o telespectador como otário, não é novidade alguma.

O que é interessante ressaltar é que o artista tem que, das duas uma, ou ser muito cara de pau, ou ser muito artista mesmo, para conseguir convencer alguém de que está comemorando o ano novo em uma terça-feira do mês de novembro.

Na verdade, são todos cretinos.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

64 - A linda


Dissertávamos verbalmente sobre “a linda”.

“A linda” não é a mais gostosa, sequer é a mais bonita. Mas “a linda” será sempre a mais linda. Definitivamente não há espaço para duas “lindas” no mesmo recinto.  Existe “a linda” e existem as outras.

“A linda” tem um quê de metafísico, algo que é difícil explicar, mas é fácil notar, é possível sentir. Uma coisa que deixa o ar mais leve, o clima mais amenos, os sonhos mais possíveis, mais gostosos.

“A linda” é bonita e é gostosa. E se as feias desculparam Vinícius de Morais, que façam o mesmo por mim, mas mesmo não precisando ser necessariamente a mais bonita, beleza é fundamental “à linda”.

“A linda” é capaz de fazer um homem apaixonar-se em segundos. Ele planeja igreja, filhos, cachorros, netos.  E planeja, é claro, muito sexo. Pois “a linda” é sempre sensual, embora não necessite ser sexual. Os feromônios da “linda” são abundantes e exalam por todos os poros, mas ela faz isso de um jeito tão desinteressado e displicente, que é exatamente isso que a torna tão atraente, tão “linda”.

“A linda”, ao fim de tudo, é a razão de se viver. Vivemos em um mundo cretino. E apenas uma “linda” é capaz de colorir essa realidade tão cinza.

E sabe o que é melhor do que identificar uma “linda”? É ter uma só pra você.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

63 - Não foi dessa vez


- Tá, mas eu só queria saber o porquê. Por quê?

- Porque não. Pronto. Porque não.

- Mas e desde quando isso é resposta? Depois de um ano de idade esse tipo de resposta não vale mais.

- Ah, pera aí, com um ano de idade a criança nem fala ainda.

- Sei lá, depois dos três anos.

- Com três anos nem se usa da argum...

- Não, para com isso. A gente não tá conversando sobre isso. O assunto é outro, não tenta desvirtuar.

- Bom, mas por mim a gente pode mudar de assunto, pois esse está decidido. É não e pronto. Ponto.

- Mas pra ti é um problema a gente falar sobre isso? Sinceramente eu acho que se é um problema pra ti falares sobre isso é porque tem um problema muito maior por trás.

- Não, não é problema nenhum pra eu falar sobre isso, mas a resposta não vai mudar; e se a resposta não vai mudar, não tem o que conversar.

- Mas aí é que tá, a gente não tá discutindo pra resposta mudar, eu só estou querendo entender o motivo pelo qual a resposta não vai mudar. Tem que ter um motivo. Senão eu vou achar que é um capricho teu só pra me sacanear.

- Não tem nada de capricho, é só uma questão de... Uma questão de...

- Aí! Tá vendo? Já tá gaguejando. Não gagueja, quero ver. Responde, sem gaguejar.

- Não estou gaguejando.

- A gente namora há cinco anos. Eu sempre respeitei, mas agora a gente chegou num momento quê...

- Que o quê?

- A gente não está namorando só de sacanagem. Provavelmente a gente vai morar junto, viver junto, ficar juntos por...

- Casar?  A gente vai casar?

- É. Pode ser, isso aí. E se a gente vai, esse tipo de situação tem que ser resolvido. E a gente resolve assim, conversando.

- A gente vai o quê?

- Isso. Isso que você falou.

- Mas fala você.

- Ahh, para. Isso aí.

- Tu tem dificuldade é? Fala. Se tu não falar com todas as letras não tem nem mais assunto.

- Casar. Tá bom assim? A gente vai casar, e, se casados formos, a gente tem que ter essa situação muito bem resolvida.

- Mas já está resolvida. Na verdade, a gente já falou muito sobre isso. Tu sempre vens com esse papo furado.

- Não, a gente não fala. Eu peço e você diz que não. Resume-se a isso.

- Dói. É porque dói.

- Tá bom. Dói. Mas que eu saiba você nunca deu.

- Nunca dei.

- Então tem que experimentar pra saber se dói ou não.

- Eu não disse que nunca experimentei, eu disse que nunca dei.

- Ah não. Como assim? Já experimentou, mas nunca deu? Isso não existe. Tu deu pra quem?

 - Não, nunca dei.

- E que papo é esse de “já experimentou”? Porque, tecnicamente, se um pau já entrou ali, você já deu.

- Entrou, mas foi sem querer. E se foi sem querer não fui eu quem dei. E se queres saber, doeu e doeu 
muito.

- Mas como que entrou? Estavas dormindo?

- Ah é, estava, estava dormindo. Lógico que não. Entrou sem querer.

- Então tá aí. Explicado o motivo do teu trauma. Entrou sem tu estares com vontade, sem estar pronta. Sem estar preparada. Sem estar relaxada. É isso. Na verdade pode-se dizer que você foi arrombada.

- O que é isso? Então tu queres comer o meu cu e vem dizer que eu sou arrombada?

- Fala baixo.

- Fala baixo não. Sério, era só o que me faltava, eu venho contigo em um puta restaurante chique, a gente tomando um vinho e, além de só querer falar de cu, tu ainda me chama de arrombada.

- Amor, não viaja. Tu sabes que eu te amo. Eu jamais falaria isso. O que eu estou querendo dizer é que o que aconteceu, é como se fosse o arrombamento de uma porta. Sabe, se eu quiser entrar em uma porta fechada eu tenho que colocar a chave na fechadura, girar com calma, colocar a mão na maçaneta, abrir a porta e, só então, entrar. Se eu chego simplesmente passando por cima da porta, com tudo, a porta vai cair, estourar, arrombar. Tu consegues observar como comer um cu, e entrar em uma porta podem ser situações semelhantes? E digo mais, tem também o lance do...

- Não. Tu não vai me convencer.

- Quando tu fazes cocô, dói?

- Lógico que não.

- E eu duvido que tu nunca tenha feito um cocô mais grosso que o meu pau.

- Ahhh, não. Eu não acredito!!!

- É sério, é só pra ilustrar que o cu, diametralmente falando, fisiologicamente falando, também está preparado. É só fazer com calma. Tu não vês tanta atriz pornô ganhando a vida dando o cu? Tem que parar com esse lance de achar que o cu é algo pejorativo. Tem filme que a atriz da o cu pra dois caras ao mesmo tempo.

- Ao mesmo tempo?

- É, ao mesmo tempo.

- Montagem.

- Que montagem? Tá de sacanagem? Como que o cara vai fazer montagem de dois paus entrando em um cu?

- Como não? Os caras explodem o mundo inteiro no cinema, cortam a cabeça, viajam pra marte e não vão conseguir efeitos especiais para enfiar dois paus em um cu? Isso é ridículo de fácil.

- Não viaja, filme pornô tem orçamento muito baixo e... Espera aí, não vamos sair do foco. Foda-se se é efeito o não. Fodam-se as atrizes pornô, foda-se o Spielberg. O papo aqui é o seu cu e o meu pau. O seu cu no meu pau. Isso não pode ser tabu. Tem que estar no dia a dia do casal, tem que...

- Mas nem que a vaca tussa que tu vai comer o meu cu todo dia. Mas nem sonha com uma coisa dessas.

- Eu não disse que quero comer o teu cu todo dia. A única coisa que eu quero é fazer uma vez. Uma vezinha só. Depois de fazer uma vez, tu diz se gosta ou não e daí a gente segue essa conversa.

- Não.

- No meu aniversário?

- Não.

- Lua de mel?

- Ah, mas quem disse que não ia querer lua de mel?

- Então tá combinado. A gente faz uma lua de mel e lá tu dá pra mim.

- ...

- Combinado.

- ...

- Sério. Combinado.

- Mas por que tu queres fazer uma coisa que eu não quero.

- Não queres?!?!?! Mas e quando eu coloco a língua tu não gosta?

- Tá, mas agora tu queres comparar  o teu pau com a tua língua?

-Não, eu não estou comparando. Mas é para entenderes que se tu gosta de uma linguada ali é porque tu vai gostar mais ainda quando for o pau. Tem terminações nervosas. É que nem na bucet...

- Ai não, buceta não.

- Eu ia falar bucetinha.

- Fala baixo.

- Bucetinha pode?

- Não.

- Tá, é que nem na perereca. Tu gosta quando eu coloco a língua, mas o bom mesmo é quando o pau entra.

- Ai, que vulgar.

- Ah, espera aí. Eu estou falando um assunto muito sério com a minha namorada. Não queres que eu fale igual professor primário. Pênis, vagina, orifício, cavidade...

- Mas então fala baixo.

- Imagina, se Deus é tão perfeito, por que tu achas que ele ia fazer o cu milimétricamente do tamanho ideal para receber um pau? Porque Deus não ia imaginar, que tão pertinho um do outro o cara não ia ter a ideia. Se o cu não fosse pra comer, Deus faria, sei lá, o cu muito grande. Ou muito pequeno. Ou bem longe da buceta, sei lá.

- Ué, tu não é um ateu tão convicto.

- Tá, esquece Deus. Sendo a evolução, tão perfeita... Deve ser isso. Ao longo da evolução da humanidade só restaram aquelas mulheres que tinham o cu mais ou menos do diâmetro do pau dos homens. Só os casais que conjugavam dos prazeres do sexo anal que foram considerados aptos para evoluir.


- Quanta besteira.

- Tá bom. Mas então, na lua de mel?

- Agora tu só quer lua de mel pra ficar comendo o meu cu.

- Primeiro, eu não quero “ficar comendo o teu cu”. Quero comer uma vez, depois o papo é outro.

- Não.

- O Sérgio, sabe o Sérgio? A namorada dele disse que ia dar na lua de mel, e no primeiro aniversário de namoro ela deu.

- Come o cu dela então.

- ...

- Olha, o Sergio é o Sérgio, tu és tu, e o cu da namorada do Sérgio é o cu da namorada do Sérgio.

- Não. Sério, é um absurdo. Tu sendo minha esposa, e eu com a frustração sexual de nunca ter comido um cu. Aposto que isso não é saudável. Olha Freud, pode ver lá. Homem com frustração de não ter comido um cu só pode dar merda.

- Acho que tu que tens que procurar Freud. Essa tua fixação não é normal.

- É serio, imagina eu andando de mão dada contigo na rua e o cara apontando: olha lá aquela garota, eu já comi o cu. E o babacão do namorado aqui batendo punheta pensando no teu cu.

- Ninguém vai dizer isso porque eu nunca dei.

- Ah tá. E o cara que meteu sem querer? Homem não tem dessa não. O pau entrou no cu, mesmo sem querer já é um cuzinho na conta.

- É isso que tu queres né? Colocar um cuzinho na conta.

- Não. Eu não quero colocar mais um cuzinho na conta, eu quero colocar um cuzinho na conta...

- Ui, que nojo. Duvido que tu nunca tenha feito.

- Não fiz. Nunca fiz. E se você não colaborar eu nunca vou fazer e vou ser frustrado pro resto da vida. Capaz de dar uma depressão bem grande e daí, nem se tu quiseres dar, eu vou conseguir.

- Ahh, que bom. Porque eu nunca, nunca, nunca vou querer dar. Logo, tu não precisas te preocupar com isso.

- Tu não entendes. Eu só quero ter o prazer de desfrutar esse momento contigo. É como se fosse a minha virgindade, sabe? Um momento bonito, só nosso. E tenho certeza que tu vai ter prazer também.

- Como tu sabes que eu vou ter prazer, tu já deu o teu?

- Tá maluca? Não tu só podes estar de sacanagem comigo. Eu não sei se você percebeu, mas eu estou 
falando sério contigo.

- Então tá, então eu vou te dizer o que eu acho. Se é pra falar sério, vamos falar sério. Acho que essa fixação por cu é vontade tua de dar o teu. Tu não estava falando em Freud? Então...

- ...

- Que foi? Não era pra falar sério.

- Olha, eu acho uma infantilidade tua isso que você tá fazendo. Eu sou viado então porque quero comer o teu cu?

- Não é por isso, é a fixação.

- AHHHH TÁ! Eu sempre quis comer o teu cu. A primeira vez que a gente transou eu quis, a segunda vez que a gente transou eu quis. TODAS as vezes que a gente transou, eu quis. Eu bato punheta esmagando o meu pau, com a mão bem fechadinha, imaginando que to comendo teu cu. Faz cinco anos que eu quero isso. E agora tu vens me dizer que eu to querendo dar a bunda? Isso só pode ser sacanagem.

- Esmagando a mão?

- É.

- Como assim?

- Eu quando seguro o pau, aperto bem. Deixo a mão bem apertada.

- ...

- Pra simular o cu, bem apertadinho.

- É por isso?

- Isso o quê?

- Tu achas que eu não sou apertadinha?

- Lógico que não. Não é isso amor. Eu adoro a tua buce...

- Buceta não!

- ... a tua pererequinha. Eu adoro ela, eu me delicio nela. Acho ela uma delícia, cheirosa, gostosa, molhada. Eu amo ela, toda vez que vejo da vontade de cheirar, lamber, tocar, esfregar o p...

- Ai... Para que eu vou ficar com vontade.

- Mas eu também tenho vontade de lamber, tocar, cheirar o teu cu.

- Ahh, já broxei. Lamber cu, cheirar cu? Isso não é nada excitante. Sei lá, cu me lembra cocô. Remete a sujeira.

- Bom, só se tu não limpa direito o teu. Daí realmente eu não posso fazer nada.

- Nem vem, eu limpo muito bem. Se eu não limpasse tu não ia adorar lamber.

- E se dar o cu não fosse bom, tu não ia adorar que eu lambesse.

-COF! COF!
Era o garçom, dando uma tossida constrangida. Quando o casal percebeu, só restavam eles no restaurante.

- É que a cozinha está fechando, vocês querem fazer mais algum pedido?

- Não, não. Obrigado. Pode trazer a conta.

- Pois não.

O garçom afastou-se, e o casal olhou-se. Sorriram. Não falaram nada, mas pensaram juntos. Será que estavam os garçons estavam escutando a conversa?

Pagaram a conta e foram embora. Ele na certeza de que, se ouviram o papo, os garçons torciam por ele. Ela na certeza de que não iria dar o cu. Não aquela noite.